terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Oníricas [Continuação]

Só tive certeza de não estar sonhando quando senti fome. Também quando precisei satisfazer minhas necessidades. Sempre me disseram que, no tipo de lugar em que me encontrava, é importante não sair nem se desviar do caminho - mas defecar no meio de uma trilha não me pareceu razoável (até então não encontrara outras pessoas, nem mesmo pegadas; ainda assim, o pudor me assaltou).

Pensei em velhas histórias. Velhas histórias são sábias e tem poder. Não fosse assim, não durariam. Então, como um guerreiro em um labirinto, amarrei um fio de minha malha em um toco e adentrei, só um pouco, a floresta. Pedi licença a quem quer que pudesse estar me assistindo, cavei um buraco e me aliviei. Segui meu fio de volta e pensei nas almas retornando ao corpo, depois do sonho. Mas os fios que elas seguem são de prata, e não de lã suja.

Agora, faltava acalmar o estômago. Havia alguns cogumelos, mas temi comê-los, por desconhecer sua espécie. Caçar poderia ser perigoso, também. Frutas, não as encontrei. Decidi seguir em frente enquanto tivesse forças. A trilha poderia aproximar-se de novo do rio e, então, eu pescaria. Sempre fui pobre e acostumei-me a enfrentar tais necessidades.

O caminho começou a inclinar-se levemente e cheguei, quase sem perceber, ao topo de uma colina. Uma vez lá, esqueci-me de todo o resto: da fome, do cansaço, do medo, da certeza de que jamais voltaria à minha casa. Isso porque, à minha frente, descortinava-se, imenso, o mar!

Conhecia o mar pelas histórias de um marinheiro que encontrei na cidade certa vez. Fascinei-me tanto por suas narrativas que sequer cheguei a incomodar-me com o cheiro de bebida azeda que dele exalava. A luz emitida pelas histórias contadas naquela noite – com seus monstros, tormentas e sereias – impediu-me de fechar os olhos por alguns dias, na hora de dormir. Houve vezes em que cheguei a sonhar com aquela massa infinita de água, mesmo tendo a certeza de que jamais a veria. Agora, diante daquele espetáculo, não conseguia fechar os olhos e, ainda assim, me era impossível enxergar tudo. Precisava chegar mais perto e, por isso, desviei-me da trilha, sem perceber.

A encosta era muito íngreme e desci-a com dificuldade. Demorei a perceber que tudo à minha volta começara a ficar estranho, um pouco falso, como se a paisagem fosse um desenho feito com carvão; a impressão era causada não só pela cor de chumbo do mar e do céu: a terra estava calcinada, nada havia no chão além de cinzas e estranhas pedras brancas sujas de fuligem.

Também avistei, de longe, pessoas andando lentamente naquela desolação; foram as primeiras que encontrei em toda a minha jornada, mas, ao me aproximar, percebi que não eram exatamente pessoas. Como descrevê-las? Eram seres rotos, esfarrapados. Seus corpos estavam arruinados, com a carne preta, carbonizada, pendendo dos ossos; nos rostos sem pele os dentes estavam à mostra, num esgar contraído de músculos secos, e os olhos brancos, quando olhos existiam, fitavam o chão; criaturas de pesadelo, andavam lentamente, meio agachadas, entre os escombros da paisagem, a vasculhar pedras e restos de moitas queimadas. Quando encontravam o que queriam, um pedaço de osso com um pouco de carne podre ou uma carcaça negra de inseto, as criaturas imediatamente o comiam, roíam e chupavam. Depois, continuavam sua luta inútil contra a fome.

Com alívio, percebi que aqueles seres grotescos não pareciam me notar; andei, bem devagar, para trás e algo estalou sob meus pés. Olhei para baixo e percebi que não caminhava sobre seixos, mas sobre ossos, queimados e quebradiços: esqueletos de pássaros, peixes e ratos. De grandes ursos, dragões e coisas maiores que dragões. O lugar estava morto e naquela praia estava o que restara de toda a vida, terrestre e marinha, daquele reino. Que cataclismo teria lá se abatido?

Perplexo demais para continuar meu caminho, consegui apenas ficar ali, parado, escutando o leve murmúrio que vinha de algum lugar junto a meus pés. Agachei-me. Caveiras de diversos tons de cinza sussurravam enquanto me fitavam com órbitas vazias. Diziam-me para não me preocupar. “Está tudo bem”, falavam com suas vozes mortas, “tudo renascerá um dia”.

Foi quando um barulho atrás de mim me fez congelar; era um som de ossos esmagados por pés de ossos e estava muito, muito próximo. Virei-me e percebi que as criaturas haviam interrompido sua refeição e dirigiam-se, com seu passo lento de pesadelo, em minha direção. Tentei correr, mas alguma força começou a impedir-me de avançar. O esforço para dar cada passo era tão grande que precisei agarrar-me a algumas rochas e tocos que estavam à minha frente, como se estivesse caindo para trás, e puxar-me com toda a força para avançar alguns centímetros.

Meus perseguidores se aproximavam, sem emitir som além daquele de seus passos. Estava aterrorizado, tinha certeza de que eles queriam me devorar e beber meu sangue; talvez com isso readquirissem suas carnes, seus músculos, suas feições. Talvez assim a fome daquele reino fosse embora. Talvez a maldição daquele povo, daquela terra, se devesse a sua alimentação grotesca. Agarrei-me a uma rocha maior, que parecia um marco antigo, e fiz um último esforço com o que me sobrava de energia. Já sentia a mão daquelas criaturas sobre mim e sabia que não conseguiria avançar mais.

Entretanto, simplesmente rolei para frente, por um barranco que não estava ali antes. Tinha voltado à floresta e havia uma estalagem à minha frente. Uma mulher olhava-me inexpressivamente.
[continua...]



Licença Creative Commons
Oníricas de Fernando Bittencourt está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://batrepelentedetubarao.blogspot.com.br/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://batrepelentedetubarao.blogspot.com.br/.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Oníricas

A floresta era antiga e nela entrávamos em busca de madeira e caça; temíamos os animais, as bruxas e os faunos. As yelélis roubavam nossas crianças e comiam seus ossos. Flautas eram tocadas por mãos peludas, vampiros saíam de suas covas, escuros e podres, para se alimentar de carne e sangue quentes (de manhã, nós os procurávamos e desenterrávamos – bem conservados, seus corpos estavam inchados e o sangue escorrido no canto da boca denunciava a refeição noturna – e enterrávamos uma estaca em seu peito; um grito, quase um chiado, escapava pelo buraco e gelava nossa nuca. Sua cabeça e seu coração eram então arrancados e enterrados numa encruzilhada).

Vez por outra, um lobo possuído pelo diabo atacava o vilarejo. Aqueles que eram mordidos e sobreviviam ficavam pálidos e arredios. Eram expulsos a pedradas, pois licantropos são seres malignos e muito perigosos.
Nossas casas eram guardadas por kobolds. Deixávamos sempre um pouco de mel para eles, embaixo das escadas ou nos cantos das cozinhas. Seus olhos brilhavam à noite, mas nos sentíamos seguros com sua presença. Lá fora, o fantasma de meu pai continuava sua vigília sob a árvore onde fora enterrado. Sua luz esverdeada era vista em noites escuras e seus gemidos, ouvidos quando o vento frio vinha do norte.

Um dia, quando ainda era jovem, eu saí à cata de violetas para que minha mãe as vendesse na feira da cidade, algumas milhas abaixo, seguindo pela estrada. Na vila, quando chovia forte, as águas varriam os corpos de gatos, cães e pássaros que morreram sobre os telhados, fazendo-os cair na rua, sobre as pessoas.

Como andasse pela trilha distraído, inadvertidamente pisei num anel de fadas, um círculo perfeito de grama baixa cercado por cogumelos. Ao sair de dentro dele, assustado, me pareceu que a luz havia mudado. O verde e o dourado eram mais vivos. Temi jamais encontrar o caminho de volta pra casa. Depois, me tranquilizei: que vida era aquela que deixaria para trás? Segui adiante.

Caminhava por uma terra ancestral, na qual nunca estivera. O bosque era baixo, as árvores, retorcidas, velhas e sábias. Algumas se envenenaram com maldade, seu coração havia se tornado negro como o solo. A terra era coberta por musgo e pequenas samambaias. Sabia que, se continuasse na trilha, nenhum mal me aconteceria. De um lado dessa trilha havia um regato, límpido e fresco; do outro, um barranco cheio de buracos. Dentro desses buracos, percebi, havia pequenos sapos. Eles estavam dormindo, encolhidos; peguei um, verde claro e viscoso. Acordado pelo calor da palma de minha mão, ele me olhou com olhos vermelhos e começou a narrar uma história; em meu cérebro, imagens se formavam à minha revelia:

“Nos tempos antigos, os habitantes desse local adoravam as cobras. Isso ainda acontece em alguns lugares do mundo, distantes daqui como sonhos. Na época certa, quando as fogueiras eram acesas, essas cobras eram tratadas como mulheres. Não era um jogo, nem uma representação: as pessoas realmente acreditavam que aqueles animais eram mulheres: não mais seres escamosos, frios e rastejantes, mas quentes, suaves, a caminhar sobre duas pernas. E como eram belas! Eis aí um dos mistérios da Arte: devido à força da crença, aqueles répteis sagrados realmente transformavam-se em seres híbridos mulher/cobra – não meio a meio, nem mesmo uma mistura entre ambas, mas sim uma e outra ao mesmo tempo. Nesse dia era permitido aos homens fazer sexo com aquelas criaturas e as crianças que nascessem dessa união seriam especiais, poderosas, e pertenceriam ao povo das mães. Seriam então por elas levadas ao rio e jamais caminhariam com os humanos.”

Devolvi o animal a seu buraco e ele voltou a dormir. Sabia que, se me sentasse, passaria ali o resto de minha existência a escutar belas histórias verídicas narradas por sapos. Ao invés disso, segui meu caminho.
[Continua...]


Licença Creative Commons
Oníricas de Fernando Bittencourt está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://batrepelentedetubarao.blogspot.com.br/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://batrepelentedetubarao.blogspot.com.br/.

À Noite

Quando olho o mar à noite sinto a vastidão do mundo e seu silêncio. Estamos longe demais uns dos outros.


Licença Creative Commons
À Noite de Fernando Bittencourt está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://batrepelentedetubarao.blogspot.com.br/.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais às concedidas no âmbito desta licença em http://batrepelentedetubarao.blogspot.com.br/.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Sua respiração lenta é minha insônia

Sua respiração lenta é minha insônia. A janela filtra uma luz cinza-azulada que é quase outra forma de escuridão, mas ainda assim a vejo enquanto afasto o cabelo de sua nuca. Um beijo leve e a respiração muda um pouco. Quanto tempo passo a olhá-la? Falta tão pouco para a manhã chegar... Minha garganta aperta e escorrego de novo para debaixo dos lençóis, desajeitado; eu a abraço e ponho minha mão em seu seio, sua pele toda na minha pele. Ela estremece e se vira. No entresonho, me beija. Ouço seu coração bater. Sinto seu cheiro em mim.

Licença Creative Commons
Sua respiração lenta é minha insônia de Fernando Bittencourt é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

domingo, 4 de agosto de 2013

Litargo

Essa era Litargo, a cidade calçada com Tempo. Seus habitantes possuíam tantas cores! O verde claro das folhas na primavera e o marrom delas no outono; o escarlate, o azul, o amarelo, o negro profundo do ébano, o verde escuro do jade em que um mestre chinês, há muito falecido, esculpiu um dragão com tanta perfeição que este, não se sabendo pedra, pôs-se a voar sobre o reino, a dar risadas, bater na barriga e anunciar a estação das frutas.

As casas da cidade eram belas, mas não suntuosas. Elas existiam para a função de ser habitadas, de ser amadas porque protegiam seus moradores, recebiam seus amigos e, à noite, abraçavam-nos na hora do amor; lá eles nasceram, e a mesma cama em que dormiram e amaram carregava seus corpos quando a Vida soltava seu abraço pesado daquelas almas, para que elas pudessem continuar suas jornadas.

Para se chegar em Litargo, era necessário atravessar o mar, pois ela ficava em uma ilha cercada de brumas; ou um deserto, pois ela fora erguida em um oásis longínquo; ou uma selva fechada e perigosa; ou escalar a mais alta das montanhas; ou cruzar uma ponte no céu até uma nuvem; ou talvez simplesmente atravessar um sonho até o fundo.

Lá abundavam os pomares, as fontes; qualquer viajante que chegasse à cidade, exausto e sedento, poderia atravessar os seus portões (ou as suas muralhas, pois que muitos vinham voando em águias, pássaros trovão, tapetes, hipogrifos) a qualquer hora; todos teriam a sede aliviada, o pó lavado, o corpo cuidado e a história de suas aventuras ouvida nas tavernas ou na praça do Mercado. Esta, por sinal, era o centro da cidade e de sua vida.

O que lá se comprava e vendia, ah! Vinhos de todas as frutas; criaturas de lendas, que transformavam, com um olhar, pessoas em pedra ou em sal; especiarias raras de terras distantes; mulheres e homens suaves e versados em todos os segredos da arte do amor; máquinas e mecanismos que imitavam a vida com perfeição; venenos que traziam a morte sem dor e sem sinais; tapetes e tendas; espadas e lâmpadas mágicas; potes contendo espíritos de vento ou djins de fogo; demônios e anjos, selos e runas, cajados, pedras e cálices, garrafas pequenas com licores; havia espelhos de prata e bronze, água em que se via refletida a Lua, mesmo durante o dia; encantamentos, areia e flores, segredos guardados em pergaminho e cerâmica. Isso e muito mais havia lá, no mercado.

Por vezes, a multidão que se aglomerava na praça abria-se; no meio da roda, um cego, um mendigo ou um velho, a pele dura como couro, esticava o fio de suas histórias maravilhosas sobre reinos antigos e prodígios da magia; sobre aventureiros corajosos e ladrões destemidos; sobre tiranos covardes, sobre mares tempestuosos, sobre donzelas em perigo, sobre traições vis.

Do alto de um minarete, um muezim convocava, todas as tardes, os fiéis à oração; em outro canto, negros esplêndidos tocavam tambores, a invocar seus deuses guerreiros. Sábios do oriente, vestidos apenas com trapos, dormiam sob as estrelas e carregavam suas cuias, a mendigar arroz; havia outros devotos, inumeráveis: do deus enforcado e do crucificado; do deus ferido com a lança e do que comanda a caça e o campo de batalha, da deusa da fertilidade, do deus que reina sobre os mortos e o esquecimento, do deus rebelde que deu ao homem o fogo. Todas as fés eram ali professadas, sem rusgas, sem máculas, por fiéis devotados e sinceros.

Se alguém fechasse os olhos, poderia se deixar guiar pelos infinitos perfumes de especiarias, flores, comidas, pessoas, sem jamais se perder, sempre se descobrindo a si mesmo.

***

Mas não estava em todas essas belezas, em toda essa riqueza, o grande milagre de Litargo. Ele estava na maneira como foram assentadas suas vias, calçadas com grandes blocos esculpidos de Tempo. Quem os produziu, quem os terá encaixado?

Não havia nada de particularmente belo em tal piso, apesar de seu aspecto de cristal. Mas, para quem o observasse bem, ele logo se revelaria cheio de cor, profundidade e mistério. Quem quer que caminhasse por aquelas ruas teria vagas sensações assemelhadas a uma espécie de conforto, de carinho, como lembranças antigas e perdidas, como o encontro do amor, o abraço do amigo há muito ausente, o ressonar suave do amante adormecido. Um lembrava-se, de repente, do gosto dos pêssegos da vila de sua infância; outro, do assombro que sentiu na primeira vez em que viu o mar.

Ao andar sobre o próprio Tempo, um deixa de sentir sua passagem. Companheiros, então, poderiam celebrar por um momento aparentemente interminável a alegria do pão duro repartido no deserto, na longa viagem para Litargo. Uma peça de teatro, uma dança cheia de beleza, um gesto delicado, prolongavam-se indefinidamente; a história parecia não acabar, em suas surpresas, seu drama. E você, você poderia roubar à Vida um momento a mais junto ao seu amor!

***

Que procuramos, afinal, nós, os Homens? O que nos leva a caminhar com tanta sede enquanto ignoramos, conscientemente, a fonte que brota a dois passos de nós? Passamos a ignorar a Vida quando começamos a ignorar nossos companheiros de jornada. Se não há quem nos acompanhe na trilha, com quem compartilharemos as horas amargas do sofrimento, com quem dividiremos o perfume da flor? Caminhamos sem rumo e solitários e, com suor, pensamos erguer castelos dourados que mais tarde se revelam prisões. Trancados dentro delas, julgamo-las confortáveis porque nos protegem do vento e da chuva da liberdade.

Somente o orvalho conhece a flor e, se se expõe de cara limpa à luz do sol, é porque se sabe abraçado por ela. Depois, feliz, evapora-se, levando consigo parte do perfume de seu breve amor.

Mas nós ignoramos essa alegria; sonhamos com picos elevados e acomodamo-nos no fundo de nossos próprios precipícios. Ausentes de nós mesmos, sentimos a nostalgia indefinida da perda dalgum dom delicado, desconhecido mas fundamental, que não sabíamos possuir; sozinhos, choramos e buscamos no escuro aquilo que nos falta e, como o Mar, esticamos nosso braço, desejosos de tocar a Lua. Mas uma distância de mundos nos separa dela, um vão aberto em nossas almas, que tentamos preencher com quinquilharias triviais, coloridas e barulhentas, apenas para abafar o grito cinzento que nos faz tremer desde o fundo. Então, lentamente, alguma coisa preciosa seca, esgotando-se, dentro de nós.

Muitos, ouvindo sonhos e lendas, correm então a procurar por Litargo, com a esperança de que, lá, irão encontrar aquilo que foram lentamente deixando pelo caminho.

***

Um dia chegou do outro lado do deserto, do outro lado do mar, um homem. Confiante, trazia seus instrumentos e fórmulas. Mediu, pesou, calculou e meditou. Então, com um martelo, extraiu lascas de Tempo das pedras do chão. Meses depois, voltou trazendo trabalhadores com picaretas e embaixadores com palavras, papeis e promessas.

Iniciou-se assim a extração dos blocos que calçavam as ruas de Litargo. Algumas vozes elevaram-se contra, mas eram fracas e foram rapidamente suplantadas pelo som do trabalho e das moedas de ouro. Do outro lado do mar, o tempo era uma mercadoria rara e preciosa e, rapidamente, o calçamento antigo foi sendo substituído pela areia que jazia embaixo.

O mercado foi o termômetro do que aconteceu em seguida. Os viajantes, que antes abundavam, agora começavam a escassear; menos comerciantes vinham vender suas mercadorias e estas já não eram mais tão especiais. Depois, mesmo as ruas começaram a se tornar desertas e as casas, vazias. Uma a uma, as pessoas começaram a voltar para o sonho de onde vieram, pois o de Litargo estava desfeito.

Arrependido, o conselho da cidade tentou remediar a situação: mandou embora os estrangeiros e tentou restaurar a antiga glória da cidade; mas, como não houvesse mais artífices que trabalhassem com tão delicado material como era o Tempo, resolveu-se usar ouro puro em seu lugar. Isso não surtiu efeito porque, uma vez iniciada, a queda já não poderia ser evitada.

Já no final, os poucos moradores remanescentes – os idosos, as feiticeiras, os loucos, os poetas – recusaram-se a deixar sua cidade desaparecer. Tomaram para si a última lasca dos antigos blocos e esconderam-na no fundo do coração das pessoas. Após isso, finalmente Litargo apagou-se e morreu. O deserto tomou suas ruínas e sequer uma flor nasceu novamente naquele lugar; mesmo quem jamais havia pisado naquelas ruas sentiu alguma coisa murchar dentro de si. Sem saber por que, todos acordaram naquela noite sentindo-se mais pobres; depois, voltaram a dormir.

Ainda assim, hoje, quando a noite não deveria acabar, você ainda pode encontrar em si mesmo, no fundo de seu coração, um último vestígio de Litargo e, dessa forma, passar um pouco mais de tempo junto ao seu amor.

04 de agosto de 2013

Licença Creative Commons
Litargo de Fernando Bittencourt é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

terça-feira, 23 de julho de 2013

A velhinha muito pobre (Uma História do Mar)

O mundo era cinza naquela época. Tenha em mente que isso aconteceu há muito, muito tempo. Ainda assim, nesse tempo o mundo já era antigo. E cinza.

Havia, bem ao norte, um penhasco isolado e, em sua mais alta vertente, à beira de um precipício sobre um velho leito seco, havia uma casa. Não era fácil se chegar lá – o caminho era árduo, escuro, cercado de grandes moitas de espinhos afiados – mas também não havia quem quisesse tentar.

Na casa do penhasco morava uma velhinha muito pobre. Sua pobreza fora o Tempo quem trouxera. Ladrão que é, havia muito ele roubara a juventude da velhinha, sua beleza e, por fim, sua alegria. Depois da passagem dele, nada de especial restara naquela casa. Nada de especial restara à velhinha muito pobre. Nada?

Talvez... pois havia uma chave. Sim: dentro de uma gaveta em um móvel empoeirado, na cozinha (que comeria ela? Tinha fome, às vezes?). Em certos dias, o rostinho apagado da velhinha como que se lembrava de emitir uma estranha qualidade de brilho. Ela então se levantava de onde estivesse, ia ao móvel, apanhava a chave e dirigia-se, com passinhos de veludo, à porta do porão.

Uma vez aberta tal porta, a velhinha muito pobre, vela na mão, descia as escadas, com cuidado: mesmo sob seu peso de passarinho, os degraus rangiam, ameaçando ceder. Já embaixo, passava por entre caixas empilhadas e roídas por ratos – que dentro delas faziam seus ninhos e viviam suas histórias de ratos, ignorando completamente o mundo dos homens, por inútil.

Numa dessas caixas descansava, amarelo e arruinado, um vestido de casamento. Naquela outra sonhava, esquecido, um ursinho marrom; imundo como um vira-latas, caolho como um deus antigo, ele ainda aguardava uma criança para brincar. Esperará até a eternidade. Ainda assim, ele espera.

Numa prateleira no fundo do porão, entre ferramentas enferrujadas e latas de tinta seca, havia um pote, que iluminava a tudo com uma espécie de radiação tênue e azulada. Dentro do pote a velhinha, em tudo o mais a criatura mais pobre desse mundo, guardava o maior de todos os tesouros: lá estava, protegido e confortável, o Mar. Todo ele.

Era possível admirar, ao olhar ali dentro, todas as cores, tons e semitons: dos corais, com peixes a se esconder e a se devorar uns aos outros; dos galeões afundados, com sua carga de esqueletos e ouro; das ondas bravias da superfície e das leves ondulações da areia no fundo. Tudo mudando, tudo tão cheio de vida! Lá, dentro do pote, estavam as muitas correntezas, a carregar algas e afogados; lá habitavam as serpentes, os cachalotes e outras criaturas de pesadelo. Tudo estava ali, a se desvelar à vista da velhinha muito pobre.

Mas, um dia, a velhinha olhou com mais atenção. E, por detrás das cores, da beleza, atrás até mesmo dos seus segredos, o mar revelou algo novo: revelou sua profundidade, sua escuridão. Tomada de um terror das primeiras Eras, a velhinha viu refletidas ali sua própria profundidade, sua própria escuridão. E, nelas, viu, sem qualquer proteção, a miséria de sua vida, sua indizível solidão.

Um som surgiu, lento: um gemido angustiado, de dor profunda, e as rugas daquele rostinho arruinado começaram a se umedecer com lágrimas. O gemido se transformou em uivo, as pernas pouco firmes cederam finalmente, após uma batalha de décadas, e a velhinha foi ao chão; chorava como um bebezinho, a pobre.

Quanto terá durado tal pranto?

Enfim, devagar, o choro foi diminuindo e, olhe só!, transformou-se em um suspiro e, mesmo, em uma risada, doce e leve! A velhinha muito pobre então se sentou, ainda com as bochechas quentes, úmidas; tomou em suas mãos o pote caído e, com alívio, o abriu.

O Mar ali guardado jorrou com força, arrastando tudo quanto havia pela frente; subiu as escadas e arrombou portas e janelas, explodindo para o mundo lá fora. Ele correu, criança alegre e terrível, por todos os campos e todas as montanhas, lavando até mesmo as frestas mais espremidas entre as rochas, levando a poeira embora e deixando em seu lugar as cores havia muito esquecidas. Após sua furiosa celebração, o Mar aquietou-se e resolveu descansar nos lugares mais baixos do mundo.

Ele ainda fica lá. Ele ainda cobre aquele que foi outrora um precipício e no qual ainda há uma casa. Estou certo de que ali habita uma sereia.

***

O Mar possui muitos segredos. Dragão, dorme sobre o ouro de naufrágios e os esqueletos polidos de marinheiros.
O Mar tem suas histórias. Ele as sussurra nas ondas e as escreve, com sua bela e lenta caligrafia, na areia, quando a maré recua.

***

Essa estória o mar me contou em uma noite sem lua na qual eu, sentado na areia úmida, recordava um amor perdido.


28 de maio de 2012


Licença Creative Commons
A velhinha muito pobre (Uma História do Mar) de Fernando Braga Bittencourt é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.