domingo, 22 de dezembro de 2013

Oníricas

A floresta era antiga e nela entrávamos em busca de madeira e caça; temíamos os animais, as bruxas e os faunos. As yelélis roubavam nossas crianças e comiam seus ossos. Flautas eram tocadas por mãos peludas, vampiros saíam de suas covas, escuros e podres, para se alimentar de carne e sangue quentes (de manhã, nós os procurávamos e desenterrávamos – bem conservados, seus corpos estavam inchados e o sangue escorrido no canto da boca denunciava a refeição noturna – e enterrávamos uma estaca em seu peito; um grito, quase um chiado, escapava pelo buraco e gelava nossa nuca. Sua cabeça e seu coração eram então arrancados e enterrados numa encruzilhada).

Vez por outra, um lobo possuído pelo diabo atacava o vilarejo. Aqueles que eram mordidos e sobreviviam ficavam pálidos e arredios. Eram expulsos a pedradas, pois licantropos são seres malignos e muito perigosos.
Nossas casas eram guardadas por kobolds. Deixávamos sempre um pouco de mel para eles, embaixo das escadas ou nos cantos das cozinhas. Seus olhos brilhavam à noite, mas nos sentíamos seguros com sua presença. Lá fora, o fantasma de meu pai continuava sua vigília sob a árvore onde fora enterrado. Sua luz esverdeada era vista em noites escuras e seus gemidos, ouvidos quando o vento frio vinha do norte.

Um dia, quando ainda era jovem, eu saí à cata de violetas para que minha mãe as vendesse na feira da cidade, algumas milhas abaixo, seguindo pela estrada. Na vila, quando chovia forte, as águas varriam os corpos de gatos, cães e pássaros que morreram sobre os telhados, fazendo-os cair na rua, sobre as pessoas.

Como andasse pela trilha distraído, inadvertidamente pisei num anel de fadas, um círculo perfeito de grama baixa cercado por cogumelos. Ao sair de dentro dele, assustado, me pareceu que a luz havia mudado. O verde e o dourado eram mais vivos. Temi jamais encontrar o caminho de volta pra casa. Depois, me tranquilizei: que vida era aquela que deixaria para trás? Segui adiante.

Caminhava por uma terra ancestral, na qual nunca estivera. O bosque era baixo, as árvores, retorcidas, velhas e sábias. Algumas se envenenaram com maldade, seu coração havia se tornado negro como o solo. A terra era coberta por musgo e pequenas samambaias. Sabia que, se continuasse na trilha, nenhum mal me aconteceria. De um lado dessa trilha havia um regato, límpido e fresco; do outro, um barranco cheio de buracos. Dentro desses buracos, percebi, havia pequenos sapos. Eles estavam dormindo, encolhidos; peguei um, verde claro e viscoso. Acordado pelo calor da palma de minha mão, ele me olhou com olhos vermelhos e começou a narrar uma história; em meu cérebro, imagens se formavam à minha revelia:

“Nos tempos antigos, os habitantes desse local adoravam as cobras. Isso ainda acontece em alguns lugares do mundo, distantes daqui como sonhos. Na época certa, quando as fogueiras eram acesas, essas cobras eram tratadas como mulheres. Não era um jogo, nem uma representação: as pessoas realmente acreditavam que aqueles animais eram mulheres: não mais seres escamosos, frios e rastejantes, mas quentes, suaves, a caminhar sobre duas pernas. E como eram belas! Eis aí um dos mistérios da Arte: devido à força da crença, aqueles répteis sagrados realmente transformavam-se em seres híbridos mulher/cobra – não meio a meio, nem mesmo uma mistura entre ambas, mas sim uma e outra ao mesmo tempo. Nesse dia era permitido aos homens fazer sexo com aquelas criaturas e as crianças que nascessem dessa união seriam especiais, poderosas, e pertenceriam ao povo das mães. Seriam então por elas levadas ao rio e jamais caminhariam com os humanos.”

Devolvi o animal a seu buraco e ele voltou a dormir. Sabia que, se me sentasse, passaria ali o resto de minha existência a escutar belas histórias verídicas narradas por sapos. Ao invés disso, segui meu caminho.
[Continua...]


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À Noite

Quando olho o mar à noite sinto a vastidão do mundo e seu silêncio. Estamos longe demais uns dos outros.


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