domingo, 4 de agosto de 2013

Litargo

Essa era Litargo, a cidade calçada com Tempo. Seus habitantes possuíam tantas cores! O verde claro das folhas na primavera e o marrom delas no outono; o escarlate, o azul, o amarelo, o negro profundo do ébano, o verde escuro do jade em que um mestre chinês, há muito falecido, esculpiu um dragão com tanta perfeição que este, não se sabendo pedra, pôs-se a voar sobre o reino, a dar risadas, bater na barriga e anunciar a estação das frutas.

As casas da cidade eram belas, mas não suntuosas. Elas existiam para a função de ser habitadas, de ser amadas porque protegiam seus moradores, recebiam seus amigos e, à noite, abraçavam-nos na hora do amor; lá eles nasceram, e a mesma cama em que dormiram e amaram carregava seus corpos quando a Vida soltava seu abraço pesado daquelas almas, para que elas pudessem continuar suas jornadas.

Para se chegar em Litargo, era necessário atravessar o mar, pois ela ficava em uma ilha cercada de brumas; ou um deserto, pois ela fora erguida em um oásis longínquo; ou uma selva fechada e perigosa; ou escalar a mais alta das montanhas; ou cruzar uma ponte no céu até uma nuvem; ou talvez simplesmente atravessar um sonho até o fundo.

Lá abundavam os pomares, as fontes; qualquer viajante que chegasse à cidade, exausto e sedento, poderia atravessar os seus portões (ou as suas muralhas, pois que muitos vinham voando em águias, pássaros trovão, tapetes, hipogrifos) a qualquer hora; todos teriam a sede aliviada, o pó lavado, o corpo cuidado e a história de suas aventuras ouvida nas tavernas ou na praça do Mercado. Esta, por sinal, era o centro da cidade e de sua vida.

O que lá se comprava e vendia, ah! Vinhos de todas as frutas; criaturas de lendas, que transformavam, com um olhar, pessoas em pedra ou em sal; especiarias raras de terras distantes; mulheres e homens suaves e versados em todos os segredos da arte do amor; máquinas e mecanismos que imitavam a vida com perfeição; venenos que traziam a morte sem dor e sem sinais; tapetes e tendas; espadas e lâmpadas mágicas; potes contendo espíritos de vento ou djins de fogo; demônios e anjos, selos e runas, cajados, pedras e cálices, garrafas pequenas com licores; havia espelhos de prata e bronze, água em que se via refletida a Lua, mesmo durante o dia; encantamentos, areia e flores, segredos guardados em pergaminho e cerâmica. Isso e muito mais havia lá, no mercado.

Por vezes, a multidão que se aglomerava na praça abria-se; no meio da roda, um cego, um mendigo ou um velho, a pele dura como couro, esticava o fio de suas histórias maravilhosas sobre reinos antigos e prodígios da magia; sobre aventureiros corajosos e ladrões destemidos; sobre tiranos covardes, sobre mares tempestuosos, sobre donzelas em perigo, sobre traições vis.

Do alto de um minarete, um muezim convocava, todas as tardes, os fiéis à oração; em outro canto, negros esplêndidos tocavam tambores, a invocar seus deuses guerreiros. Sábios do oriente, vestidos apenas com trapos, dormiam sob as estrelas e carregavam suas cuias, a mendigar arroz; havia outros devotos, inumeráveis: do deus enforcado e do crucificado; do deus ferido com a lança e do que comanda a caça e o campo de batalha, da deusa da fertilidade, do deus que reina sobre os mortos e o esquecimento, do deus rebelde que deu ao homem o fogo. Todas as fés eram ali professadas, sem rusgas, sem máculas, por fiéis devotados e sinceros.

Se alguém fechasse os olhos, poderia se deixar guiar pelos infinitos perfumes de especiarias, flores, comidas, pessoas, sem jamais se perder, sempre se descobrindo a si mesmo.

***

Mas não estava em todas essas belezas, em toda essa riqueza, o grande milagre de Litargo. Ele estava na maneira como foram assentadas suas vias, calçadas com grandes blocos esculpidos de Tempo. Quem os produziu, quem os terá encaixado?

Não havia nada de particularmente belo em tal piso, apesar de seu aspecto de cristal. Mas, para quem o observasse bem, ele logo se revelaria cheio de cor, profundidade e mistério. Quem quer que caminhasse por aquelas ruas teria vagas sensações assemelhadas a uma espécie de conforto, de carinho, como lembranças antigas e perdidas, como o encontro do amor, o abraço do amigo há muito ausente, o ressonar suave do amante adormecido. Um lembrava-se, de repente, do gosto dos pêssegos da vila de sua infância; outro, do assombro que sentiu na primeira vez em que viu o mar.

Ao andar sobre o próprio Tempo, um deixa de sentir sua passagem. Companheiros, então, poderiam celebrar por um momento aparentemente interminável a alegria do pão duro repartido no deserto, na longa viagem para Litargo. Uma peça de teatro, uma dança cheia de beleza, um gesto delicado, prolongavam-se indefinidamente; a história parecia não acabar, em suas surpresas, seu drama. E você, você poderia roubar à Vida um momento a mais junto ao seu amor!

***

Que procuramos, afinal, nós, os Homens? O que nos leva a caminhar com tanta sede enquanto ignoramos, conscientemente, a fonte que brota a dois passos de nós? Passamos a ignorar a Vida quando começamos a ignorar nossos companheiros de jornada. Se não há quem nos acompanhe na trilha, com quem compartilharemos as horas amargas do sofrimento, com quem dividiremos o perfume da flor? Caminhamos sem rumo e solitários e, com suor, pensamos erguer castelos dourados que mais tarde se revelam prisões. Trancados dentro delas, julgamo-las confortáveis porque nos protegem do vento e da chuva da liberdade.

Somente o orvalho conhece a flor e, se se expõe de cara limpa à luz do sol, é porque se sabe abraçado por ela. Depois, feliz, evapora-se, levando consigo parte do perfume de seu breve amor.

Mas nós ignoramos essa alegria; sonhamos com picos elevados e acomodamo-nos no fundo de nossos próprios precipícios. Ausentes de nós mesmos, sentimos a nostalgia indefinida da perda dalgum dom delicado, desconhecido mas fundamental, que não sabíamos possuir; sozinhos, choramos e buscamos no escuro aquilo que nos falta e, como o Mar, esticamos nosso braço, desejosos de tocar a Lua. Mas uma distância de mundos nos separa dela, um vão aberto em nossas almas, que tentamos preencher com quinquilharias triviais, coloridas e barulhentas, apenas para abafar o grito cinzento que nos faz tremer desde o fundo. Então, lentamente, alguma coisa preciosa seca, esgotando-se, dentro de nós.

Muitos, ouvindo sonhos e lendas, correm então a procurar por Litargo, com a esperança de que, lá, irão encontrar aquilo que foram lentamente deixando pelo caminho.

***

Um dia chegou do outro lado do deserto, do outro lado do mar, um homem. Confiante, trazia seus instrumentos e fórmulas. Mediu, pesou, calculou e meditou. Então, com um martelo, extraiu lascas de Tempo das pedras do chão. Meses depois, voltou trazendo trabalhadores com picaretas e embaixadores com palavras, papeis e promessas.

Iniciou-se assim a extração dos blocos que calçavam as ruas de Litargo. Algumas vozes elevaram-se contra, mas eram fracas e foram rapidamente suplantadas pelo som do trabalho e das moedas de ouro. Do outro lado do mar, o tempo era uma mercadoria rara e preciosa e, rapidamente, o calçamento antigo foi sendo substituído pela areia que jazia embaixo.

O mercado foi o termômetro do que aconteceu em seguida. Os viajantes, que antes abundavam, agora começavam a escassear; menos comerciantes vinham vender suas mercadorias e estas já não eram mais tão especiais. Depois, mesmo as ruas começaram a se tornar desertas e as casas, vazias. Uma a uma, as pessoas começaram a voltar para o sonho de onde vieram, pois o de Litargo estava desfeito.

Arrependido, o conselho da cidade tentou remediar a situação: mandou embora os estrangeiros e tentou restaurar a antiga glória da cidade; mas, como não houvesse mais artífices que trabalhassem com tão delicado material como era o Tempo, resolveu-se usar ouro puro em seu lugar. Isso não surtiu efeito porque, uma vez iniciada, a queda já não poderia ser evitada.

Já no final, os poucos moradores remanescentes – os idosos, as feiticeiras, os loucos, os poetas – recusaram-se a deixar sua cidade desaparecer. Tomaram para si a última lasca dos antigos blocos e esconderam-na no fundo do coração das pessoas. Após isso, finalmente Litargo apagou-se e morreu. O deserto tomou suas ruínas e sequer uma flor nasceu novamente naquele lugar; mesmo quem jamais havia pisado naquelas ruas sentiu alguma coisa murchar dentro de si. Sem saber por que, todos acordaram naquela noite sentindo-se mais pobres; depois, voltaram a dormir.

Ainda assim, hoje, quando a noite não deveria acabar, você ainda pode encontrar em si mesmo, no fundo de seu coração, um último vestígio de Litargo e, dessa forma, passar um pouco mais de tempo junto ao seu amor.

04 de agosto de 2013

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Litargo de Fernando Bittencourt é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.