Havia, bem ao norte, um penhasco isolado e, em sua mais alta vertente, à beira de um precipício sobre um velho leito seco, havia uma casa. Não era fácil se chegar lá – o caminho era árduo, escuro, cercado de grandes moitas de espinhos afiados – mas também não havia quem quisesse tentar.
Na casa do penhasco morava uma velhinha muito pobre. Sua pobreza fora o Tempo quem trouxera. Ladrão que é, havia muito ele roubara a juventude da velhinha, sua beleza e, por fim, sua alegria. Depois da passagem dele, nada de especial restara naquela casa. Nada de especial restara à velhinha muito pobre. Nada?
Talvez... pois havia uma chave. Sim: dentro de uma gaveta em um móvel empoeirado, na cozinha (que comeria ela? Tinha fome, às vezes?). Em certos dias, o rostinho apagado da velhinha como que se lembrava de emitir uma estranha qualidade de brilho. Ela então se levantava de onde estivesse, ia ao móvel, apanhava a chave e dirigia-se, com passinhos de veludo, à porta do porão.
Uma vez aberta tal porta, a velhinha muito pobre, vela na mão, descia as escadas, com cuidado: mesmo sob seu peso de passarinho, os degraus rangiam, ameaçando ceder. Já embaixo, passava por entre caixas empilhadas e roídas por ratos – que dentro delas faziam seus ninhos e viviam suas histórias de ratos, ignorando completamente o mundo dos homens, por inútil.
Numa dessas caixas descansava, amarelo e arruinado, um vestido de casamento. Naquela outra sonhava, esquecido, um ursinho marrom; imundo como um vira-latas, caolho como um deus antigo, ele ainda aguardava uma criança para brincar. Esperará até a eternidade. Ainda assim, ele espera.
Numa prateleira no fundo do porão, entre ferramentas enferrujadas e latas de tinta seca, havia um pote, que iluminava a tudo com uma espécie de radiação tênue e azulada. Dentro do pote a velhinha, em tudo o mais a criatura mais pobre desse mundo, guardava o maior de todos os tesouros: lá estava, protegido e confortável, o Mar. Todo ele.
Era possível admirar, ao olhar ali dentro, todas as cores, tons e semitons: dos corais, com peixes a se esconder e a se devorar uns aos outros; dos galeões afundados, com sua carga de esqueletos e ouro; das ondas bravias da superfície e das leves ondulações da areia no fundo. Tudo mudando, tudo tão cheio de vida! Lá, dentro do pote, estavam as muitas correntezas, a carregar algas e afogados; lá habitavam as serpentes, os cachalotes e outras criaturas de pesadelo. Tudo estava ali, a se desvelar à vista da velhinha muito pobre.
Mas, um dia, a velhinha olhou com mais atenção. E, por detrás das cores, da beleza, atrás até mesmo dos seus segredos, o mar revelou algo novo: revelou sua profundidade, sua escuridão. Tomada de um terror das primeiras Eras, a velhinha viu refletidas ali sua própria profundidade, sua própria escuridão. E, nelas, viu, sem qualquer proteção, a miséria de sua vida, sua indizível solidão.
Um som surgiu, lento: um gemido angustiado, de dor profunda, e as rugas daquele rostinho arruinado começaram a se umedecer com lágrimas. O gemido se transformou em uivo, as pernas pouco firmes cederam finalmente, após uma batalha de décadas, e a velhinha foi ao chão; chorava como um bebezinho, a pobre.
Quanto terá durado tal pranto?
Enfim, devagar, o choro foi diminuindo e, olhe só!, transformou-se em um suspiro e, mesmo, em uma risada, doce e leve! A velhinha muito pobre então se sentou, ainda com as bochechas quentes, úmidas; tomou em suas mãos o pote caído e, com alívio, o abriu.
O Mar ali guardado jorrou com força, arrastando tudo quanto havia pela frente; subiu as escadas e arrombou portas e janelas, explodindo para o mundo lá fora. Ele correu, criança alegre e terrível, por todos os campos e todas as montanhas, lavando até mesmo as frestas mais espremidas entre as rochas, levando a poeira embora e deixando em seu lugar as cores havia muito esquecidas. Após sua furiosa celebração, o Mar aquietou-se e resolveu descansar nos lugares mais baixos do mundo.
Ele ainda fica lá. Ele ainda cobre aquele que foi outrora um precipício e no qual ainda há uma casa. Estou certo de que ali habita uma sereia.
***
O Mar possui muitos segredos. Dragão, dorme sobre o ouro de naufrágios e os esqueletos polidos de marinheiros.
O Mar tem suas histórias. Ele as sussurra nas ondas e as escreve, com sua bela e lenta caligrafia, na areia, quando a maré recua.
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Essa estória o mar me contou em uma noite sem lua na qual eu, sentado na areia úmida, recordava um amor perdido.
28 de maio de 2012
A velhinha muito pobre (Uma História do Mar) de Fernando Braga Bittencourt é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
