terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Oníricas [Continuação]

Só tive certeza de não estar sonhando quando senti fome. Também quando precisei satisfazer minhas necessidades. Sempre me disseram que, no tipo de lugar em que me encontrava, é importante não sair nem se desviar do caminho - mas defecar no meio de uma trilha não me pareceu razoável (até então não encontrara outras pessoas, nem mesmo pegadas; ainda assim, o pudor me assaltou).

Pensei em velhas histórias. Velhas histórias são sábias e tem poder. Não fosse assim, não durariam. Então, como um guerreiro em um labirinto, amarrei um fio de minha malha em um toco e adentrei, só um pouco, a floresta. Pedi licença a quem quer que pudesse estar me assistindo, cavei um buraco e me aliviei. Segui meu fio de volta e pensei nas almas retornando ao corpo, depois do sonho. Mas os fios que elas seguem são de prata, e não de lã suja.

Agora, faltava acalmar o estômago. Havia alguns cogumelos, mas temi comê-los, por desconhecer sua espécie. Caçar poderia ser perigoso, também. Frutas, não as encontrei. Decidi seguir em frente enquanto tivesse forças. A trilha poderia aproximar-se de novo do rio e, então, eu pescaria. Sempre fui pobre e acostumei-me a enfrentar tais necessidades.

O caminho começou a inclinar-se levemente e cheguei, quase sem perceber, ao topo de uma colina. Uma vez lá, esqueci-me de todo o resto: da fome, do cansaço, do medo, da certeza de que jamais voltaria à minha casa. Isso porque, à minha frente, descortinava-se, imenso, o mar!

Conhecia o mar pelas histórias de um marinheiro que encontrei na cidade certa vez. Fascinei-me tanto por suas narrativas que sequer cheguei a incomodar-me com o cheiro de bebida azeda que dele exalava. A luz emitida pelas histórias contadas naquela noite – com seus monstros, tormentas e sereias – impediu-me de fechar os olhos por alguns dias, na hora de dormir. Houve vezes em que cheguei a sonhar com aquela massa infinita de água, mesmo tendo a certeza de que jamais a veria. Agora, diante daquele espetáculo, não conseguia fechar os olhos e, ainda assim, me era impossível enxergar tudo. Precisava chegar mais perto e, por isso, desviei-me da trilha, sem perceber.

A encosta era muito íngreme e desci-a com dificuldade. Demorei a perceber que tudo à minha volta começara a ficar estranho, um pouco falso, como se a paisagem fosse um desenho feito com carvão; a impressão era causada não só pela cor de chumbo do mar e do céu: a terra estava calcinada, nada havia no chão além de cinzas e estranhas pedras brancas sujas de fuligem.

Também avistei, de longe, pessoas andando lentamente naquela desolação; foram as primeiras que encontrei em toda a minha jornada, mas, ao me aproximar, percebi que não eram exatamente pessoas. Como descrevê-las? Eram seres rotos, esfarrapados. Seus corpos estavam arruinados, com a carne preta, carbonizada, pendendo dos ossos; nos rostos sem pele os dentes estavam à mostra, num esgar contraído de músculos secos, e os olhos brancos, quando olhos existiam, fitavam o chão; criaturas de pesadelo, andavam lentamente, meio agachadas, entre os escombros da paisagem, a vasculhar pedras e restos de moitas queimadas. Quando encontravam o que queriam, um pedaço de osso com um pouco de carne podre ou uma carcaça negra de inseto, as criaturas imediatamente o comiam, roíam e chupavam. Depois, continuavam sua luta inútil contra a fome.

Com alívio, percebi que aqueles seres grotescos não pareciam me notar; andei, bem devagar, para trás e algo estalou sob meus pés. Olhei para baixo e percebi que não caminhava sobre seixos, mas sobre ossos, queimados e quebradiços: esqueletos de pássaros, peixes e ratos. De grandes ursos, dragões e coisas maiores que dragões. O lugar estava morto e naquela praia estava o que restara de toda a vida, terrestre e marinha, daquele reino. Que cataclismo teria lá se abatido?

Perplexo demais para continuar meu caminho, consegui apenas ficar ali, parado, escutando o leve murmúrio que vinha de algum lugar junto a meus pés. Agachei-me. Caveiras de diversos tons de cinza sussurravam enquanto me fitavam com órbitas vazias. Diziam-me para não me preocupar. “Está tudo bem”, falavam com suas vozes mortas, “tudo renascerá um dia”.

Foi quando um barulho atrás de mim me fez congelar; era um som de ossos esmagados por pés de ossos e estava muito, muito próximo. Virei-me e percebi que as criaturas haviam interrompido sua refeição e dirigiam-se, com seu passo lento de pesadelo, em minha direção. Tentei correr, mas alguma força começou a impedir-me de avançar. O esforço para dar cada passo era tão grande que precisei agarrar-me a algumas rochas e tocos que estavam à minha frente, como se estivesse caindo para trás, e puxar-me com toda a força para avançar alguns centímetros.

Meus perseguidores se aproximavam, sem emitir som além daquele de seus passos. Estava aterrorizado, tinha certeza de que eles queriam me devorar e beber meu sangue; talvez com isso readquirissem suas carnes, seus músculos, suas feições. Talvez assim a fome daquele reino fosse embora. Talvez a maldição daquele povo, daquela terra, se devesse a sua alimentação grotesca. Agarrei-me a uma rocha maior, que parecia um marco antigo, e fiz um último esforço com o que me sobrava de energia. Já sentia a mão daquelas criaturas sobre mim e sabia que não conseguiria avançar mais.

Entretanto, simplesmente rolei para frente, por um barranco que não estava ali antes. Tinha voltado à floresta e havia uma estalagem à minha frente. Uma mulher olhava-me inexpressivamente.
[continua...]



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